Dossiê Temático 2026

“O ENSINO DE BIOLOGIA EM TEMPOS NEGACIONISTAS: ENFRENTAMENTOS POSSÍVEIS, PEDAGOGIAS NECESSÁRIAS”

 

Nas duas últimas décadas, o negacionismo científico se adensou como um fenômeno global multifacetado, atravessado por dimensões políticas, ideológicas, midiáticas, educacionais e subjetivas. Trata-se não apenas da rejeição pontual de determinados consensos, mas de um posicionamento sistemático e discursivo de deslegitimação da ciência como prática social e epistemológica (Szako; Ratton, 2022). O negacionismo engendra mecanismos de saber-poder que distorcem verdades e promovem revisionismos cujos objetivos são a confusão generalizada, a obstrução do acesso e do direito à ciência de maneira igualitária e equânime e a promoção de pânico moral entre as pessoas. Nas negações, argumentos falaciosos e notícias falsas, a manipulação da opinião pública é acionada para desacreditar temáticas, estudos, dados, conjunturas, vozes e significados negociados na produção, circulação, acesso e ensino da ciência.

Esse cenário é intensificado na chamada “era da pós-verdade” (Dunker, 2017; Barbosa, 2019) na qual a economia de atenção é disputada por redes digitais que reorganizam as formas de circulação do conhecimento em meio à velocidade da disseminação de informação confusa, simplificação de conteúdos e de questões sociais complexas, monetização dos saberes e engajamento emocional. Os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos que geram reação imediata, apelam para a identificação passional em detrimento da compreensão científica e do debate, favorecem a desinformação em “bolhas epistêmicas” ou “câmaras de eco” endossantes do consumo de falácias prejudiciais ao pluralismo político e epistêmico, das polarizações e pedagogias de ódio contrárias à educação democrática (Porcino; Lopes, 2024).

Como efeito, os conhecimentos científicos deixam de ser percebidos como processuais, coletivos e contingentes, passando a ser tratados não em termos de letramento científico e midiático, mas como opiniões, conteúdos descontextualizados ou deliberadamente falsos disputados no mercado simbólico das mídias e redes. 

Por outro lado, documentos curriculares, materiais didáticos e políticas educacionais não têm contemplado, de maneira explícita, a problematização crítica do negacionismo científico. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, reduz o enfrentamento ao negacionismo à falta de informação ou à aquisição de habilidades e competências para averiguação de sites (Venancio; Selles, 2025), além de suprimir questões sociocientíficas que necessitam de discussões sobre ciência – tecnologia – sociedade – ambiente, educação antirracista, educação para corpo – gênero – sexualidade, educação ambiental, sobre controvérsias científicas, etc., para seus entendimentos situados e interdisciplinares. Já o Plano Nacional de Educação em vigência, ao propor metas para a superação das desigualdades educacionais, promoveu o apagamento epistêmico das compreensões sobre diversidade, diferença, pertencimento cultural e étnico-racial, contribuindo para que os debates educacionais fossem cooptados por grupos econômicos (empresários, agronegociantes, think tanks transnacionais) e conservadores religiosos interessados na regulação da educação básica brasileira (Carvalho; Bellini, 2024).

Tais perspectivas contribuem para o esvaziamento da biologia como campo sociopolítico, desfavorecem a problematização do negacionismo desde a escola, reforçam a indeterminação da compreensão pública da ciência ao endossar concepções ingênuas, visões falaciosas e o desengajamento do conhecimento em questões relacionadas à superação das desigualdades sociais (Vilela; Selles, 2020; Venancio; Selles, 2025).

Em contraposição ao negacionismo científico, práticas educativas têm sido produzidas e acionadas a fim de enfatizar o letramento científico crítico e plural, a compreensão da ciência como produção social e a importância das educações para a justiça social e para o enfrentamento de pseudociências.

Da literatura acadêmica, destacam-se algumas produções e iniciativas que evidenciam a urgência de investigar como as mídias e as redes sociais, a divulgação científica, os currículos, as práticas pedagógicas e a formação docente têm incorporado ou não estratégias de enfrentamento ao negacionismo científico. A saber:
a) “Dossiê Negacionismos e Usos da História” – publicado pela Revista Brasileira de História da Associação Nacional de História (ANPUH); b) “Dossiê contra o negacionismo da ciência: A importância do conhecimento científico” – publicado pela Rede Mineira de Comunicação Científica (RMCC) e Pontifícia Universidade Católica (PUC / MG); c) “Dossiê Negacionismo sob Múltiplos Olhares” – da Araripe: Revista de Filosofia da Universidade Federal do Cariri; d) Projeto EducAnti: Políticas Curriculares e Negacionismo Científico na Escola – uma rede de professores e pesquisadores de diversas universidades públicas dedicada a ações educativas, pesquisas, análises de políticas públicas e curriculares de enfrentamento ao negacionismo (EducAnti..., 2026).

As conjunturas que fortalecem a disseminação do negacionismo científico impõem desafios substantivos ao ensino de biologia no âmbito das pesquisas acadêmicas, do ensino superior e das escolas da educação básica, dos espaços nos quais a biologia é tensionada como construtora de significados para o mundo. O enfrentamento ao negacionismo demanda o fortalecimento da educação científica em perspectivas e intencionalidades ampliadas, que incluam dimensões críticas, midiáticas, sociopolíticas e a compreensão de quais sentidos científicos são disputados nas redes de interesse (Azevedo; Borba, 2020). Tais perspectivas implicam compreender a  ciência como prática social situada, permeada por controvérsias, disputas de poder e processos históricos, afastando-se das visões ingênuas de imparcialidade, objetividade, neutralidade e universalidade.

Nesse sentido, o ensino de biologia pode assumir um papel estratégico, uma vez que se situa na intersecção entre conhecimentos científicos e culturais, questões sociocientíficas, divulgação da ciência em espaços formais e informais, debates ético-políticos, debates ambientais, compreensões de corpo – gênero – sexualidade, educação antirracista, debates em torno de temas como evolução biológica, vacinas, mudanças climáticas, biotecnologia, saúde pública, história da ciência, democratização do conhecimento, entre outras temáticas acionadas para se problematizar a produção da Ciência, sua natureza, seus limites e suas implicações sociais.

Destacamos a importância de correlacionar a biologia e seus ensinos à compreensão de que o enfrentamento ao negacionismo não se restringe apenas às denúncias de fake news, mas envolve dimensões afetivas, identitárias e políticas em abordagens de pesquisa e pedagógicas que dialogam com os contextos socioculturais dos estudantes. Assim, contemplar a educação para a cidadania científica, as pedagogias críticas e pós-críticas, as pedagogias decoloniais, a educação das relações étnico-raciais (ERER), a educação para corpo – gênero – sexualidade, entre outras dimensões, são também táticas contrapoder consideradas promissoras para a justiça social e para o enfrentamento do negacionismo científico.
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Diante do exposto, apresentamos a chamada pare este Dossiê, visando reunir contribuições acadêmicas e escolares que partem ou se apoiam no ensino de biologia, em diferentes contextos e abordagens teórico-metodológicas, associadas à construção de enfrentamentos ao negacionismo científico, às censuras curriculares, à circulação de falsas controvérsias e pseudociências, entre outros aspectos de desinformação e segregação educacional.

Serão bem-vindos artigos, relatos de experiências e demais produções em pesquisa que versem sobre:

·         Ensino de biologia e enfrentamentos ao negacionismo científico nos contextos educativos formais e informais;
·         Letramento e educação científica Anti-negacionista;
·         Análise de discursos ou conteúdos negacionistas em currículos, materiais didáticos, mídias, fake news e desinformação;
·         Compreensões sobre a produção e a divulgação do conhecimento científico / biológico;
·         Concepções ou produção de sentidos, ensino de temas controversos em biologia (vacinas, evolução, mudanças climáticas, biotecnologia, agrotóxicos, aquecimento global, etc);
·         Formação Docente e estratégias anti-negacionistas;
·         Práticas pedagógicas e intervenções didáticas anti-negacionistas (sequências didáticas, estudos de caso, etc);
·         Uso de tecnologias digitais e denúncia da desinformação no ensino de biologia;
·         Perspectivas epistemológicas plurais (críticas, pós-críticas, feministas, letramento racial, Educação das Relações Étnico-Raciais) vinculadas à promoção da educação democrática e anti-negacionista;
·         Demais abordagens que possam contribuir para o escopo da REnBio e do Dossiê. 


REFERÊNCIAS

AZEVEDO, M.; BORBA, R. C. do N. Educação em Ciências em tempos de pós-verdade: pensando sentidos e discutindo intencionalidades. Caderno Brasileiro De Ensino De Física, v. 37, n. 3, p. 1551–157, 2020.

BARBOSA, M. Pós-Verdade e fake news: Reflexões sobre a guerra de narrativas. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

CARVALHO, F. A. de; BELLINI, M. A extinção das políticas públicas educacionais e a Biologia no Ensino Médio: BNCC, „caça rendas‟ e colonialidade epistêmica.

Vitruvian Cogitationes, Maringá, v. 5, n. 2, e024002, 2024.

DUNKER, C. (org.). Ética e pós verdade. Porto Alegre: Dublinense, 2017. EDUCANTI. Políticas curriculares e negacionismo científico na escola. [S. l.]:

EDUCANTI, [2026]. Disponível em: <https://educanti.org/>. Acesso em: 10 mar. 2026.

PORCINO, E. R. A.; LOPES, R. Câmaras de eco e a barreira algorítmica da democracia. Revista de Ciências do Estado, v. 9, n. 2. P. 01-18, 2024.

SZWAKO, J.; RATTON, J. L. Dicionários dos negacionismo no Brasil. Recife: Cepe Editora, 2022.

VENANCIO, B.; SELLES, S. E. Negacionismo científico em pautas educacionais: desafios para o ensino de Ciências e Biologia. Revista Triângulo, v. 18, n. Esp.1, p. e025028, 2025.

VILELA, M. L.; SELLES, S. E. “É possível uma educação em Ciências crítica em tempos de negacionismo científico?”. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v.37, n.3, p.1722-1747, dez, 2020.